Fechar



Painel

Observatórios

Argumentário do Projecto CS&SC

Print E-mail
Written by Alfreda Cruz   
Article Index
Sinopse da Sessão Presencial de Lançamento do Observatório do Cidadão
0.Apresentação dos Membros da Equipa Presentes no Painel
1. Historial genético do Projecto e Função que nele assume o Protótipo do Observatório do Cidadão
2. Da Sociedade da Informação à do Conhecimento
3. Teses Específicas
4. Linhas Gerais do Debate
Notas ao texto
All Pages


PARTE II
Da Sociedade da Informação à do Conhecimento

1. O saber como recurso diferencial


Na sociedade do conhecimento – onde as organizações evoluem - o recurso económico básico é o saber. As actividades centrais criadoras de riqueza baseiam-se na produtividade e na inovação, ambas aplicações do saber ao trabalho. O saber formal é visto simultaneamente como o recurso pessoal chave e o recurso económico fundamental, sendo hoje em dia o único significativo. Aliás, a melhor aplicação do saber é hoje feita sobre o próprio saber. As escolas e as universidades estão a mudar drasticamente e os factores que vão determinando essas mudanças são as novas tecnologias disponíveis, as exigências de uma sociedade baseada no conhecimento, em que a educação organizada deve transformar-se para os trabalhadores do conhecimento num processo para toda a vida e, finalmente, a nova teoria sobre como os seres humanos aprendem. Aliás esta nova teoria tem de ter em conta o novo ambiente hipertextual (e hipermédia) de produção e fruição intelectual.


O registo, a recuperação e a difusão de mensagens é inerente a todos os processos de informação/comunicação, eles mesmos essenciais à vida em sociedades. E as mutações que ocorrem em tais processos foram e são hoje cada vez mais marcantes na evolução dessas mesmas sociedades.

O conhecimento e a informação são elementos críticos em todos os modos de desenvolvimento dado que o processo produtivo é sempre baseado num certo nível de conhecimento e de transmissão e processamento da informação. Mas, ao longo dos tempos, as formas de gestão da informação e do conhecimento variaram profundamente, sendo certo que o registo, armazenamento, recuperação e transmissão de texto e, posteriormente, de imagem, som e vídeo, sempre foram centrais nesta transformação. Aliás, como refere José Afonso Furtado (2000), ao longo dos tempos, “a escrita parece estar ligada ao problema da administração e às necessidades de uma burocracia” e, reforçando a ideia: “a função das escritas foi de início extremamente prática, ligada ao que virá a ser a gestão do estado” e só muito mais tarde assumiu as funções de conservação da memória social, na sua vertente estética (poesia, epopeia...) ou na sua vertente tecnológica (transmissão de saberes e técnicas).

Assim, escrever e ler tornaram-se actividades fundamentais que dividem os homens: entre os que sabiam (sabem) ou não sabiam (não sabem) cifrar ou decifrar, e que com esse saber detinham (detêm) poder.

Os dias de hoje configuram uma “revolução” mais radical do que todas as anteriores por abranger, pela primeira vez em simultâneo, um conjunto de mutações que até agora tinham ocorrido em separado: nas técnicas de reprodução do texto, na forma ou suporte do texto e ainda nas práticas de leitura (Roger Chartier, 2002). No passado, isso nunca sucedeu: “a invenção do códice no Ocidente não modificou os meios de reprodução dos textos ou dos manuscritos. A invenção de Gutenberg não modificou a forma do livro. As revoluções nas práticas de leitura ocorreram no contexto de uma certa estabilidade quer nas técnicas de reprodução dos textos quer na forma e materialidade do objecto. Mas, hoje, as três revoluções - técnica, morfológica e material – estão perfeitamente interligadas.”

Inscrever mensagens em suporte material, permitindo o armazenamento e transportá-las, libertando-as desse suporte material durante o transporte… está no cerne da aventura da nossa época. Mas até que ponto podemos dizer que a tecnologia – ou esta tecnologia - induz uma transformação profunda das relações sociais?

A edição electrónica beneficia da grande capacidade de armazenamento de dados, da velocidade de produção e disseminação, da facilidade de actualização e correcção e de cada vez maiores potencialidades colaborativas e interactivas. Por isso são inegáveis as vantagens que oferece face à edição tradicional, quer no se refere à disponibilidade do conteúdo quer à transparência, interactividade, possibilidade de integração e de pesquisa e diversidade de formatos (hipertexto e hipermédia).

Ora a geração de publicações que exploram as capacidades específicas do universo digital, o crescimento exponencial da Web, a vulgarização do trabalho em rede e de ambientes hipertextuais questionam a democraticidade do acesso aos benefícios que ela introduz. É neste âmbito que faz sentido ponderar o conceito de brecha digital, ruptura epistemológica fundada na capacidade diferencial desse acesso, permitindo distinguir os info-excluídos em relação àqueles que o não são.

As potencialidades crescentes da Net passam pelo hipertexto e hipermédia como resultado da capacidade desta para integrar e organizar documentos em colecções coerentes com referências cruzadas extensas, estáveis e acessíveis. Em consequência disso tornou-se o formato standard para software educativo interactivo, livros de texto e documentação técnica, obras de referência e para a própria Web. O tradicional tempo linear da narrativa desaparece assim num labirinto sem saída, o começo, o meio e o fim deixam de fazer parte da sua apresentação imediata. Em vez disso, temos opções ramificadas, menus, link markers e redes mapeadas.

O ambiente hipertextual, na sua complexidade, tornou-se pois estruturante do nosso espaço intelectual, colocando a exigência de novas competências às sociedades contemporâneas.

As técnicas hipertextuais derivam da conjugação de uma mudança tecnológica com uma epistemológica - do estatuto do texto - justificando que a literacia hipertextual se torne epistemologicamente distintiva no contexto dos usuários da Net. Em paralelo, o investimento dos jovens na conjugação do paradigma audiovisual com a “cultura diversão” da sociabilidade dos grupos insere-se numa profunda modificação dos “mundos da cultura”, em particular nas suas instâncias de legitimação e na propriedade do monopólio de classificação de “quem é ou não culto”. Paulatinamente, consagra-se um novo paradigma de “ser-se culto” que já não é sinónimo de “ser-se cultivado” ou de acumular referências próprias à cultura clássica, escolar e patrimonial. Todavia, na crescente indiferença dos jovens face às normas culturais dominantes não é possível ignorar os efeitos da interactividade, do multimédia ou do hipertexto, cuja força cognitiva ainda não sabemos quantificar ou qualificar completamente. Ler num ecrã difere de ler um livro - a velocidade da leitura, o momento das pausas, a duração da concentração, a frequência com que saltamos texto ou voltamos atrás, …– vão ser diferentes, e essas diferenças vão ter efeitos no modo como compreendemos e recordamos o que lemos.

Mas enquanto a partilha de informação se faz facilmente em ambiente virtual – sendo responsável pelo extraordinário fenómeno da globalização acelerada da economia mundial – a partilha do conhecimento a distância exige uma resposta localizada que permita potenciar o diálogo, a confiança e a construção conjunta, em ambientes presenciais, estendendo-os depois aos ambientes mediados pela tecnologia, e assim maximizar a disseminação de conhecimentos e a produção em trabalho colaborativo, que resulte em valor para os seus autores, para o resto do grupo e para a comunidade interessada.

Como diz Goman (2002) “Hoje, a colaboração informada é essencial para o sucesso organizacional, e os líderes têm que assegurar que os empregados têm acesso a todos os factos sobre todos os aspectos do seu trabalho, o que requer um maior investimento em programas de educação e desenvolvimento pessoal de forma a que tenham suficiente experiência prática para usar os dados partilhados.” Mais forte ainda é essa necessidade quando se pretende partilhar conhecimento, criá-lo colectivamente ou difundi-lo em comunidades mais vastas.

Assim, a orientação assumida no PNACE, de dinamização da Rede de Centros de Recursos em Conhecimento, pressupõe um forte investimento em programas de educação e desenvolvimento pessoal para que o tecido económico e social se torne apto a usar e a reforçar os recursos a partilhar. Mais: com a disseminação das TICs, não sendo economicamente viável manter um grande número de seres humanos no desempenho de tarefas que, com muito menores custos e maior eficiência, poderão ser desempenhadas pela tecnologia, há que desenvolver e proporcionar aos potenciais desempregados programas de formação contínua e ocupacional que lhes facilite o acesso e o apoio para a mudança de trabalho perspectivada.

Este tipo de programas deve partir de uma identificação das capacidades actuais dos formandos para as amplificar e valorizar face aos diferentes tipos de necessidades do mercado de trabalho (dentro ou fora da organização onde estão inseridos) às quais, com vantagem, poderão responder.

Estão neste caso os diversos tipos de Assistentes e Técnicos de Secretariado, por exemplo. Num Projecto como o Observatório do Cidadão, tais trabalhadores, previstos como grupo-alvo do Projecto de relação das Organizações com os Cidadãos, deverão contribuir para o reforço da memória das organizações que integram. Parte-se, nesse caso, de um perfil profissional que exija raciocínio concreto e lógico, memória com poder de retenção e de reprodução de números, palavras, frases, fisionomias, imprescindível na rotina quotidiana das organizações e experiência de contactos sociais, a vários níveis, um grau elevado de inteligência social e desenvolvida capacidade de comunicação, a par de conhecimentos de informática.

É deste perfil genérico que se parte para a concepção de um programa de formação que se propõe valorizar as capacidades de “comunicação, de relacionamento e inteligência social, de adaptação a situações novas, o seu espírito inovador e sentido prático” e, por outro lado, ampliar fortemente os seus “conhecimentos de informática” preparando estes trabalhadores para assumirem um novo perfil de competências como “mediadores de trabalho colaborativo”, designadamente nesse âmbito.

2. Das comunidades virtuais às ecologias de informação.

O novo paradigma comunicacional, baseado na colaboração entre sistemas diversificados e ligados através de redes que disponibilizam protocolos de comunicação garante que, consoante as aplicações que se constroem para facilitar a comunicação, se simulem ambientes de relacionamento diversificados: a Internet funciona assim como “uma espécie de metamedium” (Furtado, 2000), que permite ouvir rádio, telefonar, ver TV, explorar uma base de dados, fazer um conjunto de cálculos, ler jornais ou revistas, ir buscar uma certidão ou comprar um livro, acompanhar um rebanho por satélite, etc, etc.

Da e-presence (apresentação de informação na Web, com indicação de contactos) ao e-commerce (com transacções comerciais por via electrónica) e ao e-business (que já exige a integração de processos, usando a Web da procura à oferta, para relacionamento com actuais ou potenciais parceiros na cadeia de valor, e para relacionamento com actuais e potencias clientes, eventualmente em novos mercados e para novos produtos) e às suas variantes (e-administration, e-learning), às comunidades virtuais – de aprendizagem, de lazer, de convívio, de interesses e práticas - a modificação é profunda, ainda que com progressos, retrocessos e velocidades desiguais.

Portal de informações ou de conteúdo, portal de negócios, portal de suporte à decisão, portal de trabalho cooperativo, portal de especialistas, portal do conhecimento, portal de informações empresariais, são algumas das variantes orientadoras que, em geral, não se apresentam de forma “pura” mas combinadas.

Como diz Tereza Raquel Merlo (2005), “a Gestão do Conhecimento tornou-se tema privilegiado no universo das preocupações mais candentes de nossa época, principalmente nas duas últimas décadas, devido às amplas possibilidades de processamento, armazenamento e acesso à informação e dados, amparados nas tecnologias de informação e comunicação.”

Manuel Castells (1996) propõe o conceito de sociedade informacional para distinguir “a informação, no seu sentido lato, isto é, como comunicação do conhecimento, que sempre foi um elemento vital em todas as sociedades (…) do termo informacional, que se refere ao atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, processamento e transmissão da informação se tornou a fonte fundamental da produtividade e do poder, em virtude das novas condições tecnológicas que surgem neste período histórico.”

Vivemos em ecologias da informação. Uma ecologia da informação é um sistema de pessoas, práticas, valores e tecnologias num ambiente particular. Nas ecologias da informação o foco não está na tecnologia, mas nas actividades humanas servidas pela tecnologia. A avocação de uma habitação local – um sítio - e de um nome representa a própria essência de uma ecologia da informação.

Numa ecologia algumas das espécies básicas asseguram a tarefa de mediação, essencial à sobrevivência e desenvolvimento da ecologia face ao ambiente.


3. – Criação e disseminação do conhecimento

Os quatro tipos de conversão e os quatro processos estão intimamente ligados. A exteriorização é provocada através do diálogo ou da reflexão colectiva. A combinação é provocada pelo networking do conhecimento criado ou existente nas diferentes partes da organização. A acção ou o aprender-fazendo são os factores-chave da interiorização. Finalmente, a socialização começa com a construção de um campo de interacção que facilita a partilha das experiências e dos modelos mentais dos membros. A criação de conhecimento organizacional, que resulta do funcionamento deste sistema dinâmico, é definida como o “processo que amplifica organizacionalmente o conhecimento criado por indivíduos e o cristaliza como parte da rede do conhecimento da organização” (Nonaka & Takeuchi, 1995).”

Compreende-se assim quanto a criação e manutenção de um campo de interacção é crucial para a criação e difusão do conhecimento: segundo esta teoria, os sistemas de conhecimento organizacional só podem funcionar se existir um contexto facilitador, um espaço e um tempo específicos que inclua o espaço das relações interpessoais. O conhecimento criado entre indivíduos tem de ser partilhado, recriado e amplificado através de interacções com outros.

4 – A formação de mediadores de trabalho colaborativo

Os perfis e referenciais de formação dos “trabalhadores do conhecimento” estão ainda muito incipientemente abordados pelo que a avaliação da oportunidade da formação para um potencial perfil de mediadores de trabalho colaborativo terá de seguir uma metodologia adequada a tal precariedade. É necessário:

-Produzir conhecimentos sobre a realidade em mudança e estudar os bloqueios à eficácia e eficiência do Trabalho Colaborativo na Sociedade do Conhecimento
-Inovar, inserindo no tecido económico e social novos perfis e novas condições de relacionamento com vista à superação de tais bloqueios

Mas tal não pode ser feito sem a formação de novas competências. E é necessário avaliar se esta formação é adequada no sentido de poder contribuir para o atingimento dos dois primeiros objectivos.

Recorrer-se-á aos resultados obtidos nas disciplinas de CSCW - Computer Supported Cooperative Work (Trabalho Cooperativo Mediado por Computador) e CSCL - Computer Supported Collaborative Learning (Aprendizagem Colaborativa Mediada por Computador) e, em particular, usar-se-ão como tais ou reinterpretados os conceitos de Argyle e Axelrod sobre a natureza e propósitos da cooperação – reconhecimento externo, desenvolvimento de um relacionamento e partilha de actividades e recursos, benefícios mútuos - o conceito de zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky – a interacção entre pares (aprendizes) mais capazes e com o professor aumenta a capacidade de aprendizagem e diminui o gap entre o desenvolvimento actual e potencial de cada um - e a classificação de modelos de colaboração proposta por Butler e Coleman para relacionar os modelos de interacção em grupo com o tipo de tecnologias de suporte.

É na escolha das metodologias de aprendizagem – combinando técnicas e tecnologias de CSCL – que se investirá, na medida em que ela permitirá o “vários em um”: aprender a usar as tecnologias, reaprender/valorizar as novas formas de relacionamento a distância, nomeadamente pela Internet, recriar uma rede de relacionamentos (comunidade de mediadores) orientada para o apoio à disseminação e produção do conhecimento.