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Argumentário do Projecto CS&SC

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Written by Alfreda Cruz   
Thursday, 30 October 2008 10:42

Conferências de José Eustáquio Romão a convite da Universidade Lusófona

I

A PEDAGOGIA DE PAULO FREIRE

( Livraria Ler Devagar, 25.02.05)

“ O século XXI vai ser o século da pedagogia”
Duas vertentes:

- Pedagogia do Oprimido – cuja matriz é a da Educação como prática de liberdade, centrada na pedagogia da esperança e da autonomia

- Pedagogia da praxis cuja matriz é a interactividade dos intervenientes, centrada nas vivências dos discípulos

Questões centrais

- Todas as instituições que cuidam do processo pedagógico só o fazem a sério se o entenderem como processo emergente do acto epistemológico, com todo o seu background político - já que o conceito fundador de alfabetização na pedagogia freiriana corresponde à incorporação da experiência política do autor no seu sistema simbólico.

- “Ninguém aprende sozinho”, mas tudo e todos que rodeiam o processo individual de pensar, apenas podem criar condições para que ele ocorra ( “Só se pode ajudar a pensar certo”...)

- A escola é o espaço/lugar onde se organiza a reflexão política sobre as determinações sociais e as determinações da natureza que rodeiam o sujeito educável. Como tratar o conhecimento em geral e a ciência em particular para que sejam apreendidas do ponto de vista do oprimido?

- Ao contrário da pedagogia da acumulação de conhecimentos “ pedagogia dita bancária” na expressividade freiriana, defende-se ser mais acertado desaprender o que interfere negativamente na produção de pensamento próprio do que o contrário.

Interesse do pensamento de Paulo Freire:

- para a Ciência, e em particular para os físicos quânticos: por efeito do princípio da incerteza inerente à sua epistemologia.

- para o entendimento das dinâmicas de grupo em investigação social que constatam as limitações de qualquer intervenção que abstraia da participação dos destinatários

- para o entendimento das dinâmicas de adesão individual dos sujeitos em práticas profissionais, como por exemplo se verifica no âmbito da medicina tradicional que, tomando como simples objectos os destinatários dos cuidados, descarta a envolvente que os define como sujeitos interessados no objectivo da intervenção e com isso minimiza o potencial de eficácia com que à partida se podia contar.

Investigação freiriana actual :

- parte do princípio de que de que as categorias básicas do pensamento freiriano – oprimido, esperança e autonomia – são comuns aos diferentes campos da actividade humana, desde que o estudo da opressão seja assumido com objectividade;

- investe na necessidade de situar o oprimido em contexto, enquanto actor bivalente que age e pensa simultaneamente como oprimido e como opressor, dado que para sobreviver na selva humana que o oprime, vale-se muitas vezes do olhar do opressor – e daí assumir actos de fatalismo ou de violência; é porém quando se situa no olho do furacão que se torna mais provável que se torne capaz de participar na transformação das relações de opressão;

- reinventa as categorias analíticas de Paulo Freire, identificando como âmbitos de investigação, a educação / pedagogia do oprimido, a civilização do oprimido, a estética do oprimido, o património do oprimido, a saúde do oprimido, a arte do oprimido...

- questiona-se sobre o modo de lidar com a diversidade, na transversalidade do diálogo com o outro e da perspectiva universal da educação pela arte

Ilações pessoais:

- Inscreve-se neste referencial qualquer propósito de estudar os saberes do oprimido, avocando à análise e à prospectiva ( enquanto espaço de esperança activa...) a prática metodológica da investigação-acção, totalmente compatível, na sua relativa informalidade, com a lógica do pensamento freiriano e com os pilares de emancipação e de autonomia inerentes à pedagogia que dele decorre.

- repensar o questionamento do feminismo a partir da publicação Ela Por Ela de 2004.

II
Ontologia e Epistemologia Freireana

( U: Lusófona , 30.03.06)

Axiomática [2]

Axioma 1: “ Sempre que alguém desenvolve uma teoria do ser, desenvolve ou assume uma teoria do conhecimento” – daí o título dado à Conferência.

A relação entre os dois termos do axioma implica a recursividade entre a ontologia e epistemologia duma determinada área do pensamento. Paulo Freire tomou por objecto do seu pensamento o próprio homem, tomando como ponto de partida a crítica à hipótese da filosofia grega que o definira como animal político. A sua investigação conduziu-o a infirmar tal pressuposto, a partir da análise do oprimido e dos estudos de viabilidade da sua trajectória. Em seu entender, o ser humano é, à partida, não animal político, mas antes um ser que partilha com todos os seres da natureza as características de incompletude e inconclusão que os torna imperfeitos na sua finitude. De facto:

- à partida, os seres humanos são incompletos porque, para sobreviverem como seres individuais e como espécie, precisam de outros;

- são inconclusos porque a própria evolução determina que mais do que ser-se o que se é, está-se sempre ainda sendo...

- são inacabados porque, por definição, só se completam quando acabam por se transformar em seres inertes ou imateriais...

Todas estas características são comuns aos outros seres vivos. A única distinção do ser humano resulta de ser o único que dá testemunho de que sabe ser portador de tais limites. E a razão disso está na consciência que ele tem de si mesmo e daquilo que o rodeia, consciência de que decorre a tensão para se superar, no sentido de conseguir passar do estado de “ser” para chegar ao de “ser+” precisamente na perspectiva de se completar, de se concluir, de se planificar[3].

O que caracteriza a identidade humana é a capacidade de ter esperança de consegui-lo e a educação é o modo de operacionalizar essa esperança através da transformação do que se é - em determinado estádio da evolução - no seguinte. A pedagogia, enquanto reflexão crítica sobre a natureza da educação e do processo educativo, corresponde ao conjunto de praxis que lhes dão corpo. Realizando-se, enquanto pedagogias da natureza, da dialéctica, da luta, da libertação, da indignação, da utopia... desdobram-se em praxis da crítica e da esperança, de cuja síntese resulta a pedagogia do oprimido – ou seja, a pedagogia que se edifica a partir do olhar do oprimido que, apesar de o ser, delibere[4] ser capaz de produzir trabalho, conhecimento, saber, arte, cultura.

Axioma 2: “ Na mediação pedagógica, o acto político precede o gnoseológico”.

Só se aprende, “lendo” o mundo em que em que se vive. É dessa “leitura = interpretação” derivam todas as aprendizagens, a começar pela do uso da própria palavra e pela prática dialógica capaz de inserir como 3º termo na tensão dialéctica entre os contrários a capacidade de mitigar as certezas que estejam na base da violência com que elas possam impostas aqueles que não partilham as mesmas convicções

O conceito central da pedagogia freiriana é o de alfabetização entendida como processo de mediação destinado a capacitar o destinatário a incorporar o que lê no contexto em que o discurso/matéria se inscreve e por isso, no processo de alfabetização, é fulcral que o educador esteja particularmente atento ao processo de produção cultural dos oprimidos, que implica, como condição necessária, a desalienação do seu olhar.

A alfabetização visa habilitar para a produção de conhecimento liminar e para isso recorre a estratégias metodológicas referenciadas a histórias de vida e a projectos globais[5], através dos quais se cumpram os desígnios de transformação do ser/conhecimento, inerente a todo o processo educacional.

Axioma 3: “Ninguém ensina o que quer que seja a quem quer que seja, nem ninguém aprende sozinho”.

Na alfabetização, a centralidade do conceito de aprendizagem está para o de círculo de cultura, como a centralidade do conceito de ensino está para o de aula. Na perspectiva do círculo de cultura[6], o professor é um mediador e investigador, cuja prática coexiste com a do animador e do organizador das actividades, os quais em conjunto conferem consistência ao conjunto e à externalidade destas.

Na interacção e reciprocidade inerente ao círculo de cultura a dodiscência substitui a clássica dicotomia docência / discência.

[1] Comunicações do autor que preside ao Instituto Paulo Freire do Brasil, na livraria Ler Devagar em 2005 e na Univ.Lusófona em 2006.Sobre a rede freiriana, consulte-se www.paulofreire.org

[2] Axiomática identificada pela anotadora.

[3] Entendida na acepção “ de gerar e gerir um projecto próprio”- cf. a “Teoria Genética do Objecto”, na formulação da anotadora.

[4] Entendimento pessoal

[5] Pressuponho que se recorra preferncialmente ao pensamento dito lateral

[6] Em sentido sociológico, cultura é o sentido que se dá às práticas.