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Argumentário do Projecto CS&SC

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Written by Alfreda Cruz   
Thursday, 30 October 2008 10:31

A questão de partida da sessão foi colocada pelo próprio autor nos seguintes termos: irá o livro[1] ao encontro de um desejo de mudança da subjectividade social, hipótese que subjaz ao projecto que norteou o autor?

O que as reacções dos leitores parecem identificar é que grande parte dos leitores não pretende explorar pistas incómodas para uma auto-imagem que o livro põe em causa e por isso o autor conclui que se faz em liberdade muito menos do que é possível, tendo em conta o nível actual da institucionalização desta mesma liberdade. Do seu ponto de vista, temos bloqueios resultantes de inibições interiorizadas e correlacionadas com outro perfil institucional da vida em sociedade: o do ciclo de temporalidades a que a revolução de 1974 pôs termo e em que os 48 anos do regime anterior se inseriu com alguma tranquilidade que resultou do facto de se ter sucedido a outros ciclos[2] que foram moldando o corpo acomodatício da nação. O autor sublinha o ponto de vista de que, enquanto povo, não habitamos plenamente o espaço político da cidadania porque, ao longo de séculos, não interiorizámos um acervo de comportamentos eticamente codificados que permitam assumir de pleno direito uma cultura de responsabilidade e de responsabilização colectiva. Nesse contexto se insere o sentimento de impotência perante os poderosos e de privação relativa perante eles e perante o próximo, situação a que M.Villaverde Cabral atribuiu o qualificativo de inveja, vector nuclear do medo existencial que José Gil analisa ao longo do livro, considerando-o entrave à maturidade individual, à coesão social e à capacidade de intervenção na res publica, em registo de cidadania responsável.

Em face desta constatação, a apresentação do livro pretende incitar à mudança, sugerindo pistas para a emergência de uma outra atitude, mas esta implica a identificação de linhas de fuga que reconheçam as potencialidades da época actual e das características comunicacionais que a enformam. Construir um espaço público que permita trocar ideias a partir da catarse é o desafio que se nos coloca, desde que saibamos o terreno cultural que se pisa: o de uma sociedade que passou do arcaísmo à pós-modernidade sem entretanto se demorar num estado de modernidade avançada capaz de ter dado sentido a práticas sociais vigentes nas sociedades que a construíram ou beneficiaram do seu efectivo contacto. Mas trocar ideias significa ser capaz de analisar, argumentar e ponderar pistas de reflexão, sujeitá-las ao contraditório, identificar e permutar alternativas de um diagnóstico crítico com abertura capaz de gerar climas de contextualização de novas possibilidades de interpretação e de realização, nisso se inserindo estratégias de defesa pública de convicções emergentes. O processo deverá ser recorrente em todas as etapas de identificação dos problemas. Na fase que se situa mais a montante, a da identificação dos valores e dos conceitos susceptíveis de os operacionalizar como suporte das convicções que o autor propõe a debate público, retenhamos os conceitos de não-inscrição, ausência, indiferença, inconsistência, superficialidade, ligeireza, para neles apoiarmos o método de conceptualização dos antónimos que permitam configurar o grau de reversão possível dos traços negativos da psicologia colectiva em que assenta o medo existencial dos portugueses, enquanto povo[3].
Nesta perspectiva há vários postulados a considerar:

- O postulado de que pensar com os outros produz sempre resultados qualitativamente superiores aos que decorem do pensamento circunscrito, quando o desafio é o de amplificar o acervo de vias exploratórias.

- O postulado de que a consensualização, sendo possível e desejável, não deve ser só por si uma finalidade, porque o falso consenso é contraproducente para a possibilidade de se construir uma base sólida de partida para a equação de uma estratégia.

- O postulado de que há uma ética de vida que deve presidir às praxis: identificar e prosseguir um caminho, assumindo as possibilidades subjectivas em todos os espaços em que possamos agir em sua defesa. Esse desiderato cumpre-se no processo de gerar e de gerir o próprio projecto de vida[4].

A formação de subjectividades passa pela utilização de linguagens apropriadas à concientização[5] dos indivíduos. A teoria da individuação no âmbito da antropologia filosófica conceptualiza a panóplia de poderes ao alcance da exploração individual:

o O poder de se exprimir
o O poder de se transformar
o O poder de devir outrém
o O poder de desejar
o O poder de multiplicar subjectividades.

A relação da individuação com a o espaço institucional é o âmbito privilegiado para esse efeito. É o espaço da construção do espaço público, da pólis, do exercício da cidadania. Mas a referida relação coloca a questão do método de intervenção no objecto[6] que passa sempre pela etapa da desestruturação da sua imagem em função da matriz analítica do sujeito, ou seja segundo o projecto de observação que qualifica o indivíduo enquanto sujeito. Quando se trata de intervir em si próprio, o desafio passa pela superação de defesas negativas que actuem por isso contra o próprio projecto de intervenção assumido. Essa etapa de conscientização aqui identificada como de produção de vazio corresponde a processo de reversão de traços, que faça sentido sem provocar rupturas insanáveis na materialidade do povo o que pressupõe que um exercício deste tipo não possa abstrair dos próprios limites da reversibilidade. Tomando como exemplo o conceito de ligeireza, digamos, com o autor, que o termo pode ser tomado e conceptualizado na acepção de leviandade ou na de leveza, conforme for situado no seu pólo negativo ou no positivo. Serão pois estes os limites da sua ponderação.

[1] Portugal Hoje. O medo de existir, Lisboa, 2005.
[2] A prospecção histórica é matéria a apurar com especialistas, mas não nos parece demasiado arriscado situar no trauma da Inquisição e nos preliminares em que este se fundou o clima fundador dos referidos ciclos (nota pessoal).
[3] A noção de povo carece de ponderação. Na perspectiva enunciada não parece conformar-se com a leitura que a especifica por oposição às classes que se lhe sobrepõem em matéria de possibilidades de acesso aos poderes de direcção dos assuntos colectivos. Pelo contrário parecem ser estas as principais visadas na teoria do autor que ao não referir qualquer distinção neste domínio, deixa quanto a nós claro o entendimento de que o medo de existir atravessa transversalmente todo o corpo colectivo de que emergem os actores sociais, sejam eles protagonistas, figurantes ou agentes dos poderes.
[4] Segundo a teoria genética do objecto que defendemos em meio académico no âmbito das aulas teóricas da cadeira de Métodos e Técnicas de Investigação Sociológica ( UAL, 1996_1999), fazendo-a derivar da teoria do sistema geral definida por Le Moigne (19 ), sujeito é o objecto observável que é capaz de gerar e de gerir um projecto de vida
[5] Conceito freiriano que remete para a interacção da praxis com o processo de desenvolvimento da consciência do sujeito.
[6] Serão nove os estados considerados da existência dum objecto com que um sujeito se depara, segundo a supracitada teoria genética do objecto. O objecto em questão pode situar-se numa escala de complexidade que vai do objecto inerte a outro sujeito ou ao próprio observador, entendidos ambos como objecto de intervenção analítica ou outra.